quarta-feira

AUSTRALIANOS RENDEM-SE À EVIDÊNCIA




Acompanhamos a presença portuguesa em Timor Leste e ficamos divididos entre emoções contraditórias.
Orgulhamo-nos da reconhecida eficácia dos militares da Guarda Nacional Republicana. Apreciamos o modo célere como foi dada pronta resposta ao pedido feito pelas autoridades legítimas da nova Nação.
No entanto, sabemos que os nossos efectivos estão a actuar num país estrangeiro. Temos conhecimento de que outras forças se encontram no terreno. Reconhecemos a necessidade de haver coordenação operacional.
Obviamente, a GNR apenas se subordina aos dirigentes timorenses. Mas o óbice é que são as próprias autoridades locais que têm dificuldade em controlar a situação.
Além disso, temos perfeita noção da enorme importância da Austrália, como potência dominante na região.
Tenho a maior admiração pela Austrália e até grande amizade pessoal pelo respectivo Embaixador em Lisboa.
Sei da relevantíssima importância deste país na história de Timor-Leste e da gratidão que o povo timorense sente pelos australianos.
Aliás, durante a curta invasão australiana, o território desenvolveu-se de modo notável, com a edificação de novas infra-estruturas e a prestação dos mais variados serviços à população. Os habitantes foram alvo de um tratamento magnífico.
Durante os horrores da invasão indonésia, a Austrália acolheu milhares de timorenses, muitos dos quais lá fixaram raízes, permanecendo para sempre.
No entanto, alguns australianos têm, por vezes, uma certa tendência para menosprezar os portugueses, em Timor-Leste.
Foi curiosa a forma como se deu a invasão de Díli, em 17 de Dezembro de 1941.
No decorrer da Segunda Guerra Mundial, o Japão encontrava-se ao lado da Alemanha Nazi.
A Austrália inseria-se entre os Aliados.
Sabia-se que era completamente impossível os portugueses resistirem a uma invasão japonesa em Timor-Leste.
O armamento local resumia-se a umas quantas espingardas do tempo da Guerra de 1914-1918. Muito esporadicamente, aportavam embarcações de guerra ao serviço do Ultramar.
Sob todos os pontos de vista, a ocupação japonesa seria perniciosa, em particular para a Austrália, ali ao lado.
Portugal adoptara uma postura neutral perante o conflito internacional. Assim, estava fora de questão os australianos prestarem auxílio militar aos portugueses.
Por isso, a Austrália decidiu invadir Timor-Leste, marcando-a para uma semana antes do Natal.
A operação não podia ser mais pacífica.
Desembarcaram na praia, sem que ninguém desse por nada.
Dirigiram-se ao Palácio do Governo, em Díli, de modo discreto.
Em conversa com o Governador Ferreira de Carvalho, informaram-no sobre quem dirigia o território a partir daquele momento.
O português demonstrou grande atrapalhação. Declarou que não podia render-se sem receber prévias instruções de Salazar, o Presidente do Conselho. Teria de enviar um telegrama para Lisboa e aguardar pela resposta.
Os australianos recusaram, afirmando não haver tempo para tal.
O Governador português era militar e nunca tinha ouvido falar de uma coisa assim. Estar ali sossegadamente a conversar com estrangeiros, todos calmamente sentados no sofá, e ter de se render sem poder esboçar um gesto de resistência.
As evidências demonstravam o insólito da situação.
Em língua inglesa, Ferreira de Carvalho disse qualquer coisa como o seguinte:
- Vocês façam-me um favor. Voltem lá para a praia. Eu alego que foram detectados uns soldados estrangeiros e mando lá uns homens. Simula-se um confronto e, rapidamente, chega-se à capitulação.
Assim sucedeu.
Os australianos acederam.
Pouco depois, dava-se a invasão oficial.
Durou até 20 de Fevereiro de 1942, dia em que teve início o terror da ocupação japonesa.