domingo

HÁ FOGO!



Dizem que é rentável a actividade de alugar quartos a estudantes.
Anteriormente, havia vários alunos da Universidade Moderna que não eram de Setúbal.
Presentemente, ainda muitos estudantes do Instituto Politécnico procuram alojamento numa cidade onde não residem habitualmente.
Segundo me contam, há opções para todos os gostos. Desde um grupo que arrenda um apartamento, partilhando as despesas. Também há quartos em casas habitadas por uma família, que tem uma divisão a mais, disponibilizando vários serviços, incluindo o tratamento de roupas. Alguns proprietários destinam um imóvel unicamente a alugar os seus quartos a vários estudantes, que não se conheciam previamente entre si.
Seja qual for o caso, a habitação pode ter qualidade ou deixar algo a desejar.



RELACIONAMENTO

Do mesmo modo, o relacionamento com o senhorio pode ser saudável ou mais problemático.
Sobretudo aqui há uns tempos, quando a oferta era escassa, alguns proprietários impunham injustificadas restrições quanto à utilização do quarto.
Ele era a quantidade de aparelhos eléctricos de que cada um podia dispor. Vários candeeiros já causavam protestos por parte dos senhorios. Com os aquecedores, então, era um caso sério. Até a quantidade de duches que os hóspedes tomavam eram contabilizados, para controlar os custos de gás. A própria entrada de visitas chegava a ser fiscalizada.


SENHORIO INSUPORTÁVEL

Foi esse o caso ocorrido com um jovem, há mais de uma dezena de anos atrás.
Era estudante do Instituto Politécnico de Setúbal e ocupava um quarto numa habitação disponibilizada a estudantes, pelo respectivo proprietário.
O senhorio era uma pessoa complicada. Estava constantemente a entrar lá em casa e a vigiar os estudantes ali alojados. Punha-se de volta dos contadores da água e da electricidade. O prédio não era novo e o gás era fornecido por botijas, cujo peso era permanentemente controlado. Duches diários não eram permitidos. Cada um ia à banheira três vezes por semana. Sempre que lá ia a casa, o senhorio resmungava e implicava por causa dos consumos excessivos e do desgaste dos móveis.
É claro que os estudantes não se mantinham por ali muito tempo. Logo que encontravam local melhor para habitar, deixavam aquele apartamento.
Sucede que, a dada altura, apenas estava lá a residir um hóspede, o tal inscrito no Politécnico.
O rapaz parecia ser um estudante atilado, que sempre tinha sido bom aluno.
Mas o facto de se frequentar o ensino superior não constitui garantia de perfeita sanidade mental.
Farto dos remoques e das observações do senhorio, decidiu vingar-se.
Regou a casa com gasolina e pegou-lhe fogo. De seguida, fechou a porta e foi-se embora.
Trata-se de um grave crime, pelo simples perigo que causa. Felizmente, a pronta intervenção dos bombeiros reduziu os estragos a sérios danos materiais. O incêndio não se propagou a casas vizinhas.
A pressão e a tensão sentidas pelas constantes abordagens do senhorio fizeram com que fosse espoletada a perturbação latente no jovem.
Constituído arguido e submetido a julgamento, o estudante foi sujeito a perícias psiquiátricas. Com o parecer dos médicos, o Juiz optou por considerar o criminoso como geralmente responsável pelos seus actos. Contudo, decidiu que ele estava atingido por uma sensível diminuição dessa imputabilidade, no momento em que pegou fogo à casa.