terça-feira

MUITO VAIDOSO



Como fundador e primeiro diretor do jornal “Expresso”, Pinto Balsemão desempenhou uma importante missão na luta pela democracia em Portugal, papel que igualmente assumiu enquanto deputado da ala liberal, na oposição ao regime.
Posteriormente à revolução, o social-democrata afirmou-se como um dos mais ativos defensores da liberdade de imprensa e da economia de mercado, quando muitos pugnavam por meios de comunicação social estatizados e detenção pública dos meios de produção.
Nem sempre o desenvolvimento da sociedade portuguesa lhe foi favorável na vida pessoal.
O processo judicial em tribunal que mais marcou o político representou uma significativa derrota, fruto das mudanças legislativas, como revela Joaquim Vieira na excelente biografia do “patrão dos media que foi primeiro-ministro”.
Em 1966, já o novo Código Civil abolira a figura dos filhos ilegítimos. Sabendo-se quem são os progenitores, a filiação deve constar obrigatoriamente do registo civil.
Deste modo, reduz-se o número de casos em que o pai é dado como incógnito.
Com a revisão de 1978, quatro anos após a deposição de Caetano, os direitos de todos os descendentes foram equiparados, independentemente de terem nascido dentro ou fora do casamento.


CONTRAFÉ

Quando, em 1971, o oficial de diligências entregou a contrafé a Balsemão, ele já sabia do que se tratava.
O jurista, formado pela Faculdade de Direito de Lisboa, mantivera uma acesa relação com Isabel Supico Pinto, filha do presidente da câmara corporativa, no Parlamento. A senhora tinha um bom emprego em Lisboa, na empresa que construía a barragem de Cahora Bassa de Moçambique, e vivia sozinha com a empregada doméstica, num confortável apartamento. Para a criada, o amante era o Sr. Carlos Rodrigues, que estacionava o seu Porsche à porta do prédio.
Em fevereiro de 1970, aos 27 anos, a jovem engravidou e o galã não teve hesitações.
Fez-lhe chegar bilhetes de avião para a Suíça, juntamente com um envelope bem recheado de notas. A dulcineia partiu, mas regressou com a informação de que já era tarde demais para abortar.
O dono do semanário mais lido insistiu por um desmancho em Inglaterra. Sem êxito, porque, dessa feita, a futura mamã recusou perentoriamente. Deu à luz no Hospital da Cruz Vermelha.


TRIBUNAL

O advogado Nuno Fernandes Tomás aceitou o caso e intentou uma ação judicial que só terminaria em 1977, com a declaração da paternidade pelo tribunal.
Com 6 anos, o pequeno Francisco Maria estava longe de imaginar que viria a ser mais tarde convidado pelo pai a ocupar um relevante cargo de chefia no império de comunicação social entretanto construído.
A esposa traída virou-se para Carlos Cruz, com quem viveu uma sólida ligação, tendo o apresentador televisivo acolhido as crianças Mónica e Henrique no seio familiar.
Esta faceta de D. Juan do empresário nunca passou despercebida a ninguém e nos próprios meios diplomáticos a questão chegou a ser tratada em relatório oficial elaborado pela embaixada britânica em Lisboa. O então líder do PSD era descrito assim: “É um homem de fortuna, que viaja frequentemente. Muito vaidoso, foi um grande playboy na juventude, mas assentou e tem amadurecido no cargo de primeiro-ministro”.