quarta-feira

NOITE IDEAL



Gozei do privilégio de participar na Nuit des Idées, que teve lugar na Fundação Gulbenkian.
Semelhante debate de ideias teve igualmente lugar em dezenas de outras capitais de todo o mundo no mesmo dia, numa iniciativa gigantesca do estado francês.
Em Lisboa, tivemos a imensa sorte de contar com uma sessão de abertura a cargo de Boris Cyrulnik, o médico judeu que perdeu os pais durante a II Guerra Mundial.
Quando o conflito terminou, ele contava 8 anos de idade.
Embora as perspetivas não fossem animadoras para o órfão, ele mostrava-se determinado a fazer com que o futuro fosse muito mais risonho do que os tristes primeiros anos da sua existência. Tornou-se um cientista e intelectual muito reputado, autor de livros de grande sucesso.
Deixou o dramático passado para trás, agarrou-se ao presente do pós-guerra (e certamente aos estudos também) e foi construindo um futuro brilhante.
Naquele evento em terras lusas, partilhou uma curiosa história. Ou estória, para quem prefere substituir as duas primeiras letras do vocábulo quando se trata de contar algo ficcional.


PARTIR PEDRA

Era uma vez um viajante que visitava uma nova cidade.
Aproximou-se de um monte de pedras grandes, que estavam a ser fragmentadas por um indivíduo que nelas batia repetidamente com uma marreta.
O forasteiro abordou o trabalhador e indagou sobre o que ele fazia. A resposta veio com azedume:
- Faço o que me mandam fazer. Puseram-me aqui a partir pedra durante todo o dia. Não sei o que é pior. Se o frio que passo de manhã ou as horas de transpiração quando se aproxima o meio-dia.
Após uma curta caminhada, o visitante chegou junto de outro sujeito que desempenhava a mesma tarefa e que replicou de forma diferente perante idêntica pergunta:
- É o que vê: trabalho não falta. Desde que começou esta obra, a minha vida mudou. Eu atravessava um período de algumas dificuldades económicas. Agora venho para aqui de segunda a sexta-feira, pagam-me um salário razoável e nada me falta em casa.
Ao ser questionado um terceiro operário, veio uma interessante observação. O homem pousou o martelo e apontou para o edifício que estava a ser erguido:
- Estou a construir uma catedral.
Tratava-se de um homem com visão de futuro, que sentia fazer parte da execução de um projeto, de algo que se encontrava a ser erigido com vista a outro porvir. Envolvia-se no progresso da construção.



STRESS

A experiência bem real deste clínico bordalês e aquela curiosa narrativa imaginária trouxeram-me à mente o que se passa quando alguém se confronta com um processo judicial em tribunal.
É das situações mais stressantes.
O importante é ter presente que se trata de um problema temporário e que se pode levar a cabo um trabalho com vista a que o futuro desfecho seja o mais favorável possível.

sexta-feira

PRESO POR CAUSA DO NESPRESSO



As razões pelas quais alguém decide tornar-se criminoso podem ser as mais variadas.
No caso do Senhor Bojarski, o grande problema foi a Nestlé atrasar-se no interesse pela sua invenção.
Ainda antes de completar 30 anos, o engenheiro formado na Polónia fixou residência em Paris, onde se juntou à resistência que enfrentava os ocupantes nazis. Ele dedicou-se a falsificar passaportes e vistos, permitindo a fuga de muitos judeus.
Terminado o conflito e libertada a França do jugo alemão, ele inventou a cápsula de café e registou a correspondente patente.
Mas ninguém achou que fosse grande ideia.



NESCAFÉ

A companhia alimentar suíça faturava milhões com uma bebida instantânea, surgida graças à sobreprodução brasileira e tornada famosa com a mundialização da guerra. O paladar do solúvel Nescafé sempre foi objeto de muitas críticas, mas a facilidade na sua preparação tornou-o um sucesso planetário.
Já o café de alta pressão em cápsulas só adquiriu verdadeira importância a partir do ano 2000, com a abertura da primeira loja da marca popularizada por George Clooney.
Aos 88 anos, o inventor viu finalmente reconhecida a genialidade da sua criação, tendo assistido ao fenómeno nos 2 anos que ainda viveu em pleno século XXI.



VIDA NOVA

O pior é que, entretanto, Ceslaw Jan Bojarski teve que ganhar a vida.
Em 1951, o polaco naturalizado francês resolveu mudar de rumo quando se convenceu que as suas cápsulas de café nunca teriam êxito.
Então decidiu regressar às falsificações, inspirado nos seus tempos de ajuda a refugiados.
Mas, dessa vez, passou a fabricar notas de banco, qual Alves dos Reis em terras gaulesas.
Durante mais de uma dúzia de anos, dedicou-se a imprimir cédulas de cem francos com a efígie de Napoleão. Muito semelhantes às verdadeiras, são hoje peças de coleção transacionadas a 7 mil euros cada uma, valor muito superior ao que os numismatas pagam pelas autênticas.
O homem investia os lucros em obrigações de tesouro e barras de ouro.
Em 1964, foi apanhado e cumpriu 13 anos de cadeia, após a polícia apreender tudo aquilo a que conseguiu deitar mão.
Recuperada a liberdade, não obstante andar sem trabalho, ele ia frequentemente passar férias na neve, acompanhado de sua mulher.
Precisamente numa dessas ausências, os bombeiros foram chamados ao prédio onde Bojarski morava.
O seu apartamento fora atingido por uma inundação e não havia maneira de entrar na residência.
Forçada a porta, os soldados da paz fizeram uma descoberta curiosíssima: barras e moedas de ouro escondidas na cozinha garantiam a subsistência do antigo falsário.

quinta-feira

JAMAIS JAMAICA



Ninguém melhor do que eu conhece o combate à criminalidade no Bairro da Jamaica.
Como Juiz no Tribunal do Seixal, durante anos, puni alguns moradores que eram traficantes, ladrões, violadores, agressores ou assassinos.
Mas também condenei certos polícias sádicos, corruptos ou prepotentes.
Deste modo, foram afastados os elementos indesejáveis e viveu-se um período de significativa paz.
Mais recentemente, a situação piorou no Vale de Chícharos, verdadeira designação do local.
Tem plena razão o Presidente da República, que, numa aula, em resposta a jovens indignados com a violência, explicou que as notícias versam sobre o que é patológico. Ele sabe do que fala pois foi jornalista. Os meios de comunicação não divulgam a atividade quotidiana das autoridades policiais, em prol da segurança.
Assim como está corretíssimo o sindicalista Paulo Rodrigues, ao declarar que o problema reside em ter deixado de haver agentes da PSP especialmente dotados para as zonas problemáticas, sujeitos escolhidos a dedo.
Quanto ao assessor do Bloco de Esquerda, a sua indelicadeza não é assim tão grosseira como a deselegância do rude deputado que, em tempos, decidiu referir-se aos reformados como “a peste grisalha”. Não devemos ser flores de estufa hipersensíveis: há que conviver com a descortesia.
O preocupante é que dezenas de habitantes ficaram feridos, um deles com gravidade. Seis polícias foram atingidos.
O balanço não orgulha ninguém e há que fazer tudo para evitar uma escalada de violência, que pode alastrar a outras localidades.
Retiram-se os indivíduos perturbadores e, se possível, trazem-se aqueles que podem trazer tranquilidade.

FAZER-SE DE MORTO



É fascinante a reportagem de Sandra Felgueiras sobre o desaparecimento de João Álvaro Dias, advogado prestes a cumprir pena de prisão por burla.
Será que ele faleceu mesmo, junto a casa, atropelado pelo seu próprio veículo? Ou apenas simulou a sua morte?
O funeral consistiu na incineração do cadáver e agora não há vestígios biológicos que permitam verificar se o corpo era do jurista. Existe uma amostra de sangue do causídico, mas nada garante que tenha sido efetivamente retirada ao defunto.
Uma diligência simples poderá esclarecer o assunto.


CARREIRAS

Na Polícia Judiciária há duas carreiras profissionais, que são bem retratadas no cinema.
A primeira é a de investigação. O seu início dá-se nas funções de inspetor estagiário e o topo corresponde ao cargo de coordenador superior.
São os polícias que dispõem de uma arma de fogo, perseguem criminosos, prendem suspeitos, permanecem horas a vigiar pessoas, interrogam arguidos e ouvem testemunhas.
O outro ofício é o de especialista. Na base da pirâmide encontram-se os auxiliares e no topo os especialistas superiores.
Tratam-se dos profissionais que comparecem no local do crime e envergam fatos de macaco brancos com capuz e descartáveis, enquanto obtêm pontas de cigarro, colhem saliva na língua das pessoas de interesse, analisam manuscritos, observam impressões digitais, examinam munições, estudam peças de vestuário e realizam perícias em telemóveis.



IMAGEM

A fronteira entre as duas funções está bem delimitada e deve sempre ser respeitada.
Mesmo a captação de imagens fotográficas, que qualquer pessoa sem habilitações especiais consegue fazer com mais ou menos talento, deve ser deixada para os peritos. Na fotografia, uma grande espingarda passa a ter dez centímetros e o gatilho parece maior do que a coronha consoante o ângulo em que se situa a máquina. É essencial que o trabalho seja efetuado por um entendido, que coloca uma régua graduada junto ao objeto antes de fixar definitivamente o retrato segundo as normas que atenuam as distorções.


CINTO MUITO

Ora voltando ao caso do sujeito que escapou à justiça pela lei da morte, a identificação de pessoas obedece precisamente a esses critérios científicos que determinam a utilização de técnicas especiais por quem sabe do assunto.
Como já aqui expliquei, a tarefa depende da análise dos dados biométricos e foi assim mesmo que eu consegui a absolvição de um cliente que tinha sido falsamente identificado em imagens de videovigilância obtidas num assalto bancário.
É possível que dois agentes conhecessem muito bem João Álvaro Dias há imenso tempo e se recordassem perfeitamente das suas caraterísticas físicas.
Contudo nem a Mãe dele seria capaz de garantir que determinado defunto vítima de acidente de viação seria realmente o causídico. Provavelmente, reconheceria o cadáver por um cinto das calças, igual a tantos outros.



FEZADA

Sem recurso à ciência e à técnica, tudo o que há são meros palpites, impressões, suposições, alvitres próprios de quem tem uma fezada inabalável de que a realidade corresponde ao pressentimento que se foi adquirindo. Dois inspetores a olhar para um corpo fotografado apenas conseguem coçar a cabeça e concluir não haver dúvida ser aquele o homem com quem se cruzaram muitas vezes e cuja estatura bem lembram, salientando as semelhanças irrefutáveis e destacando as inegáveis parecenças com o indivíduo que deveria ir para a cadeia.
O que há a fazer é obter fotografias que indubitavelmente retratam o antigo docente universitário entre amigos, colegas ou familiares e submetê-las ao confronto com as poucas imagens disponíveis do cadáver que foi sujeito a autópsia sem que houvesse filmagem do exame.
Trata-se da perícia de reconhecimento biométrico que é levada a cabo no Laboratório de Polícia Científica, através do serviço de especialidade forense de imagem digital.

sábado

CÃO CONVOCADO PARA JULGAMENTO



Um cão a prestar depoimento em tribunal, na qualidade de testemunha, é extremamente insólito.
Conhece-se a importância dos canídeos na atividade policial, pelas referências ao binómio cinotécnico nas esquadras, por documentários ou através de séries televisivas.
Os K9 são especialmente úteis para descobrir o que os criminosos escondem: drogas, explosivos, armas de fogo, dinheiro e cadáveres.
Agora não se espere que os animais participem na produção de prova, quando se trata de demonstrar que determinados suspeitos são autores de um delito.
Os cães podem ajudar a desvendar o que se desconhece, mas não servem para provar o que se alega. Participam na investigação. Não têm interesse como meio de prova.
No caso de Madeleine McCann, em completa aflição, ainda houve quem se convencesse que uma diligência probatória seria proporcionada por cães, numa falsa esperança própria dos desiludidos que confiam mais em animais do que nas pessoas. É claro que não resultou.


BARCO

Certa vez, em Paris, um cão foi convocado pelo juiz de instrução criminal a quem competia decidir se dois arguidos iriam ser levados a julgamento por homicídio.
O caso é curioso.
Jean Aubry, abastado marchand de arte, era dono de um espaçoso barco de luxo, habitualmente atracado em pleno rio Sena, no seu cais particular. Prematuramente falecido em virtude de ataque cardíaco, o negociante deixou a viúva inconsolável. Dominique entrou em profunda depressão e foi encontrada morta nessa embarcação, na sequência de enforcamento.
A hipótese de suicídio foi prontamente afastada pela Mãe da desinfeliz.
Perante as autoridades, a progenitora destacou aspetos que suscitavam dúvidas.
A tragédia ocorreu de noite e a luz interior do barco estava apagada. Não faz sentido alguém enforcar-se às escuras. A pobre senhora estava embriagadíssima e a corda utilizada apresentava um nó de marinheiro, muitíssimo bem feito, incompatível com o estado de quem se encontra a cambalear. Foi descoberto um copo com a bebida que ela ingeriu, mas sem que contivesse uma única impressão digital. Claramente, fora objeto de limpeza.


TESTAMENTO

As suspeitas recaíram sobre Franck Payen.
Dois meses antes, a finada lavrara testamento a favor deste homem, que era tratado como seu filho espiritual, já que ela nunca tivera verdadeira descendência.
Franck, uma espécie de ovelha ronhosa, era filho de uma médica e de um juiz, mas não fora longe nos estudos.
O maior amigo de Franck era Olivier Eustache, testemunha oficial perante o notário que lavrou a manifestação de vontade da falecida, deixando os seus 14 milhões de euros a uma só pessoa, com exclusão da própria família.
Curiosamente, a corda usada apresentava vestígios biológicos de Olivier.
Os dois homens foram presos e o magistrado decidiu proceder à original diligência probatória.
A única testemunha da morte era Théo, o cão que permaneceu ao lado da sua dona.
Segundo um perito veterinário, caso o animal tivesse visto alguém a matar a viúva, então reagira de forma profundamente negativa quando se voltasse a cruzar com essa pessoa.
Foi remetida uma contra-fé para comparência do bicho. À vez, diversos indivíduos confrontaram-se com ele. Polícias e advogados foram entrando e saindo, sem que Théo se manifestasse. Quando chegou a vez de Olivier ser colocado à sua frente, o cão ficou agitadíssimo e ladrou incessantemente.
A verdade é que, tendo sido colhidos esclarecimentos junto de um especialista em etologia, ele explicou que os dálmatas, raça a que pertence Théo, são dos cães menos espertos. Explicou que o tempo decorrido teria apagado traços de memória. O alvoroço canino poderia justificar-se por uma perturbação causada por menor simpatia com certas pessoas, por razões que seria impossível apurar.
Franck Payen e Olivier Eustache foram absolvidos.

VIOLAÇÃO POR ENGANO



A doutrina aprofunda detalhadamente os crimes sexuais, havendo numerosas obras sobre a matéria.
As notícias mais recentes suscitam controvérsia.
É o tal acórdão a afastar da prisão os porteiros da discoteca que se envolveram numa “sedução mútua”, fenómeno desconhecido dos estudantes universitários das Faculdades de Direito, mas que surge agora como nova figura jurídica descoberta pelo Tribunal da Relação do Porto.
Depois, vem o juiz que, há mais de três décadas, quando contava 17 anos, tentou, sem sucesso, forçar uma rapariga a certa prática sexual. Alguns consideravam ser obstáculo a que o jurista ascendesse à catedral do sistema judicial norte-americano.


DINHEIRO E SILÊNCIO

Finalmente, o melhor jogador de futebol do mundo, que é certamente alvo de diários ensaios frustrados de chantagem e extorsão, viu ser divulgado um acordo que celebrou com a mulher que o acusa de violação.
Cristiano deve ser mais ou menos como a Coca-Cola.
Constantemente, oportunistas remetem cartas, enviam e-mails, fazem telefonemas e contratam advogados para comunicarem que ficaram muito indispostos após consumirem o refrigerante. Estão internados no hospital e até sofrem de uma doença terminal. Não logram sacar dinheiro nenhum e alguns até acabam com um processo em tribunal pela insistência ilegítima.
Imagino que o atleta seja alvo do mesmo tipo de contactos e rejeite sistematicamente ceder a inaceitáveis pressões. Com certeza é inflexível e não se deixa amedrontar por trapaceiros.
Mas naquele caso particular, Ronaldo concordou em pagar uma avultadíssima quantia à queixosa, pedindo-lhe que ela não difundisse absolutamente nada.
Dá que pensar.


FELIZ

No tocante ao reino animal português, as leis vão sendo aperfeiçoadas para proteger as criaturas destituídas de raciocínio, e também a sua sexualidade é ocasionalmente considerada.
Os defensores das touradas dizem que ninguém trata tão bem os toiros de lide como os que os criam com o fito de eles terminarem a sua existência após o combate na arena.
Até esse dia, os bois levariam uma vida rodeada de atenções, dispondo de um gigantesco harém de exemplares do sexo oposto, para cobrição independentemente da sua vontade.
Caberá aos detentores do poder legislativo avaliar se é assim tão óbvia a felicidade desses pobres bichos.


CARANGUEJO-VIOLINISTA

Quem garantidamente não tem uma vida alegre são os desgraçados caranguejos-violinistas do Algarve.
Aqueles crustáceos apresentam duas patas frontais, sendo uma delas muito mais comprida do que a outra. No folclore marítimo, a primeira serviria para segurar o instrumento musical enquanto a mais longa agarraria no arco destinado a fazer vibrar as cordas da rabeca.
Na realidade, a pinça que mais se destaca é utilizada para atrair as fêmeas, como que as agarrando ternamente, num namoro que antecede a intimidade. Daí que, no Brasil, atribuam o nome vem-cá a esses curiosos animais.
O drama é que o volumoso membro esconde deliciosos lombos bem carnudos, saborosíssimos. Com eles confeciona-se o gostoso arroz de bocas.
O que os pescadores algarvios fazem não é nada meigo.
Capturam o caranguejo-violinista e arrancam-lhe aquela patorra especial. Devolvem o animal ao mar, com vida, convictos de que o membro voltará a crescer. Quem sabe, numa captura futura, ainda servirá para uma outra refeição.
Na verdade, nada disso acontece.
Com o decurso de muito tempo, a pata extraída dá apenas lugar a um minúsculo coto que em nada se compara ao membro que se assemelhava ao ágil braço direito de um violinista. Ele nunca mais consegue arranjar uma dulcineia.
A tragédia não fica por aqui.
Sem o longo membro, o desditoso caranguejo é confundido pelos outros machos. Julgam estar perante um elemento feminino. Além de maneta vitalício, o desinfeliz animal está sempre a ser violado por equívoco.

MOCASSINS



Quem exerce uma profissão jurídica, frequentemente pondera se causa mais indignação o desrespeito pelo código civil ou a inobservância de um outro código, a que geralmente se alude recorrendo à língua inglesa: o inviolável dress code.
Há quem tolere o incumprimento da lei codificada. Por vezes, alguns mais ousados assumem a desfaçatez de considerar que as normas legais são simplesmente programáticas, tratando-se de meras orientações ou diretrizes, ao mesmo nível das regras constitucionalmente estabelecidas como metas a atingir num futuro ideal. O código da estrada nada mais faria do que estipular recomendações, que seriam acatadas caso o destinatário entendesse que o conselho era adequado.
Agora infringir o código da roupa é algo que gera a maior repulsa, justificando apropriado escândalo. O que nos convites formais surge como indumentária ou traje, em correto uso da língua portuguesa, é popularmente referido como o inexorável dress code, algo que impõe o maior respeito.


O FATO

Explica-se, assim, o profundo agastamento com o uso de calças de ganga, ou jeans para quem prefira a linguagem mais corrente, sobre passadeira vermelha estendida no aeroporto de Luanda.
Em 28 anos de carreira, nunca assisti a alvoroço tão intenso quando acontece a violação de lei obrigatória por aprovada democraticamente pelo competente órgão legislativo.
Até parece que é mais grave a violação do código da vestimenta do que o desrespeito pelo código penal.
A única norma legalmente válida sobre a matéria diz respeito à sala de audiências no tribunal: ali ninguém pode ter a cabeça coberta. Como já alertei aqui, não tardará a surgir quem invoque a respetiva inconstitucionalidade porque se impossibilita o uso de xador ou véu islâmico.


ENTRE CHEFES DE ESTADO

Um caso menos conhecido, mas de consequências bem mais significativas para a vida política do planeta, envolveu duas potências, a China comunista e a Rússia soviética.
Mao Tse Tung, fundador da república popular sínica, queria definitivamente afastar-se da pátria do socialismo marxista, apesar de as duas nações partilharem uma extensa fronteira com milhares de quilómetros. Tinha um encontro marcado com Nikita Khrushchev, que viajara em direção a Pequim.
O líder chinês estava bem ciente de que o russo não sabia nadar. Tendo crescido numa povoação rural do interior, o barrigudo Nikita nunca praticara desporto. Nem sequer aprendera a flutuar sobre a água.
Ao invés, Mao era um grande entusiasta da natação e adorava envergar os seus calções com que se banhava na luxuosa piscina de Zonghanhai, o condomínio destinado aos dirigentes partidários.
Pois foi esse o local escolhido pelo chefe de estado chinês para receber o seu homólogo, vindo de Moscovo, devidamente engravatado, com calças de fazenda e sapatos de atacadores.
O anfitrião encontrava-se em traje de banho.
Mao Tse Tung propôs imediatamente que os dois entrassem dentro de água, onde efetivamente se veio a desenrolar o encontro.
O vexame aumentou quando um assessor disponibilizou um par de braçadeiras destinadas a garantir que o visitante se mantinha à tona da água.
Assim se deu a grande cisão entre os dois maiores partidos comunistas do mundo. Khrushchev abandonou a China, ciente de que a União Soviética deixara de exercer qualquer influência sobre o império do meio.

domingo

UM OUTRO PONTAPÉ



No divertido filme português “O Pai Tirano”, um rapaz de 9 anos atua, representando o papel de um menino mimado, na secção de brinquedos da grandiosa loja Grandela, ao Chiado.
Aproveitando um momento de distração da Mãe, o miúdo dá um pontapé ao empregado e ainda se põe a chorar, fazendo uma birra, como se o caixeiro o tivesse maltratado. O pobre homem apanha com um raspanete da progenitora, sempre pronta a dar incondicionalmente razão ao seu petiz.



RESTAURANTE

Cinquenta anos depois, esse ator improvisado, de seu nome Henrique Lages Ribeiro, foi vítima de uma soez agressão, na presença de outra senhora. Tratava-se da mulher que ele elegeu como sua esposa. A ofensiva deu-se quando eles saíam de um restaurante, após o jantar.
Tudo se passou em Macau, cidade então sob administração portuguesa, onde o militar de carreira passou grande parte da sua vida.
Responsável máximo pela Polícia de Segurança Pública local, foi aí que o brigadeiro se cruzou com o temível Wan Kuok Koi, também conhecido por Pang Nga Koi ou Dente Partido. O delinquente chefiava uma cruel organização criminosa, que atuava em casinos e hotéis macaenses, retirando elevados proventos da agiotagem, exploração de salas de jogo e prostituição. Impôs o medo com dezenas de assassinatos que ficaram impunes.
Gerou-se uma guerra sem quartel entre as forças da ordem e o bando que teimava em subjugar a polícia.




VISITA

Certa vez, a confortável moradia habitada por Ribeiro foi assaltada e vandalizada, com o propósito de intimidar a população. Pois a autoridade nem sequer conseguia garantir a segurança daquela residência.
Uns tempos mais tarde, ocorreu o tal ataque.
Lages Ribeiro finalizara um agradável momento de convívio em redor de pratos tipicamente portugueses, na companhia da mulher e de uma amiga. Já na rua, o trio foi abordado por indivíduos mal-encarados, que trataram de imobilizar o líder policial, enquanto outros espancavam as duas senhoras, colocando o português na posição de não as poder defender.
Mais uma investida plena de simbolismo, visando desautorizar o profissional de armas.
Três anos passados, já com aquele dirigente reformado a viver em Portugal, Wan Kuok Koi foi preso e mandado para uma cadeia exclusivamente destinada a ele, construída propositadamente para o efeito na ilha de Coloane.
Ali esteve durante 14 anos, autorizado a receber apenas a visita de sua Mãe.

quarta-feira

PICASSO



Quando António Maria Pereira morreu, eu evoquei-o, reproduzindo aqui uma deliciosa história por ele contada.
Eram muitos os episódios reais que o Advogado tinha para relatar.
Na sua casa da Estrela, enquanto Santana Lopes ocupava o cargo de primeiro-ministro, ele ostentava com orgulho uma antiga fotografia em que surgia ao lado do político, quando este não contava sequer 30 anos de idade. Na imagem, os dois amigos descontraidamente trajavam pólos Lacoste e manifestamente não se encontravam em ambiente político-partidário.
Mais discretamente, naquela mesma habitação, exatamente no sótão, encontrava-se um quadro que o causídico havia adquirido num leilão em Londres, como sendo da autoria do genial Pablo Picasso. Após desembolsar uma pequena fortuna, descobriu que se tratava de uma falsificação. A trapalhada chegou ao Supremo Tribunal português, que não deu razão ao comprador.


XSARA

Também envolvendo o nome de Picasso, outra confusão, bem divertida aliás, ocorreu com a talentosa pintora Graça Morais.
A artista estava num stand de automóveis.
Interessou-se por uma vistosa viatura, que escondia potente motor sob o capot.
Indagou o vendedor quanto ao preço e ficou escandalizada com o altíssimo valor. Com aquele montante, podia-se fazer tanta coisa em vez de gastá-lo num veículo. Daria até para escolher uma pintura do famoso espanhol e passar a exibi-la em casa. Por isso, Graça respondeu ao comercial:
- Esse dinheiro todo daria para comprar um Picasso.
Convencido de que continuavam a falar de carros, o homem pensou em Citroën. Quis adaptar a conversa aos gostos da potencial cliente, declarando:
- Ah, compreendo. A Senhora dá preferência a monovolumes. Vou-lhe mostrar as nossas opções.

segunda-feira

CÂMARA DE VIGILÂNCIA



Há umas décadas, conversei longamente com um estivador reformado, da era em que ainda não se utilizavam os contentores que vieram simplificar muitíssimo as cargas marítimas.
A vida profissional dele iniciou-se quando ainda era uma criança, não muito longe do porto lisboeta.
Tinha onze anos e a sua pequena estatura era mesmo apropriada para as funções que lhe destinaram no Chiado, na velha livraria Sá da Costa.
A missão a cumprir era a de ser uma câmara de vídeo-vigilância humana, fiscalizando quem dissimulava artigos expostos, sem a intenção de os pagar.
O estabelecimento ainda existe, sob outro nome, dedicando-se agora o seu novo proprietário à atividade de alfarrabista.
À época em que aquele menino foi contratado, era uma das várias lojas que apresentavam em primeira mão as novidades literárias aos que frequentavam a Rua Garrett.




ALARME

Os shoplifters já existiam, mas ainda não havia circuitos fechados de televisão.
De modo que o rapaz estava de olhos bem atentos, observando do alto as pessoas que contavam com a distração dos caixeiros, posicionados junto aos balcões. Quando um ocultava discretamente um livro, o pequeno empregado já não o largava de vista até ao instante em que o falso cliente se dirigia à porta de saída.
Então chegava o momento de ele acionar o sinal de alarme, pequena sineta cujo badalo era agitado por um cordel. Agarrado por dois homens possantes, o gatuno, frequentemente jovem estudante, era encaminhado para uma sala onde aguardava a chegada do cívico policial, não sem antes ser cruelmente maltratado com uns valentes bofetões.

domingo

2624 ANOS DE PRISÃO



No total, proferi 328 sentenças condenatórias de prisão efetiva.
Foram raros os casos em que apliquei a pena máxima de 25 anos de cárcere.
Assim como houve poucos casos em que mandei alguém para a cadeia por um curto período, até porque a lei dá preferência à pena suspensa quando estão em causa menos de cinco anos de privação da liberdade.
Nesta contabilidade, as minhas sanções oscilam geralmente entre 8 a 20 anos de penitência.
De maneira que, globalmente, sou responsável por 2624 anos de cadeia cumpridos por mais de três centenas de criminosos.




MISTÉRIO

Em todo o caso, para mim, o meio prisional continua a ser um mundo pleno de mistérios.
Não há ninguém que tenha uma visão global sobre o que se passa nas cadeias. Apenas conseguimos ter uma perceção parcelar, fragmentária.
O diretor da prisão está longe de imaginar o que se passa clandestinamente: planos de fuga, comercialização de droga, negócios com telemóveis, corrupção, práticas sexuais, roubos, brutais espancamentos…
Os próprios reclusos, confinados a espaços muito limitados, ignoram o funcionamento do sistema que os mantém propositadamente desinformados por razões de segurança.
Os guardas prisionais são naturalmente encarados com desconfiança e não há quem deseje transmitir-lhes conhecimento.
Os poucos juízes que visitam estabelecimentos prisionais são confrontados com uma receção gentilmente preparada, que não dá nenhuma noção do que ocorre no dia-a-dia.




FONTES

Os advogados são muitas vezes confidentes, mas as novidades que colhem correspondem quase sempre ao que os historiadores qualificam como fontes secundárias.
Os jornalistas dispõem de importantes elementos, embora lhes sejam facultados por quem tem especiais interesses em divulgar dados: políticos, sindicalistas, defensores de presos…
Aos académicos é-lhes franqueado o contacto com o terreno e possibilitado um estudo aprofundado da realidade. Porém, está-lhes sempre vedado penetrar nos pensamentos que brotam na mente de quem desrespeita a vida em sociedade, comete um crime e se vê colocado entre as paredes que lhe retiram a liberdade.
Talvez a pessoa que tenha acesso mais direto ao que efetivamente sucede no espaço penitenciário seja a provedora de justiça.
Entre as várias missões de que Maria Lúcia Amaral está incumbida, cabe-lhe a de prestar contas às Nações Unidas do seu papel no âmbito do mecanismo nacional de prevenção. Na sua atividade inspetiva, a jurista surge nos vários estabelecimentos prisionais, sem anúncio prévio. Percorre a área sem quaisquer restrições, dialogando com quem bem entende, e solicita os esclarecimentos que entende pertinentes.

quarta-feira

SOBREVIVER A UM ATENTADO TERRORISTA



França nunca esteve imune a atentados terroristas. Nalguns casos, o visado foi o Chefe de Estado.
Em 1962, o Presidente De Gaulle continuava a gozar de enorme popularidade, mas alguns setores mais radicais queriam vingar-se da concessão de independência à Argélia.
Doze homens munidos de armas militares propuseram-se disparar a matar contra o general enquanto ele viajava num Citröen DS, acompanhado de sua mulher, em direção a uma base aérea onde um avião os esperava.
O ataque fora minuciosamente preparado por um coronel da Força Aérea, Jean Bastien-Thiry.


DISPAROS


187 balas foram cuspidas. O óculo traseiro do automóvel quebrou-se e a chapa ficou crivada de projéteis.
O político e a primeira-dama escaparam, graças a terem baixado a cabeça atempadamente, aguardando que a saraivada terminasse, por força da contra-ofensiva de numerosos guarda-costas.



“NÃO É POR MIM”

O antigo herói da resistência gaulesa ficou furioso.
Alguns jornalistas questionavam-se se seria razoável uma cólera tão patente, exuberantemente manifestada por um homem da guerra, com um passado brilhante, firmado sobretudo na campanha de França contra os nazis em 1940.
Charles De Gaulle apercebeu-se de que talvez tivesse exibido uma reação exagerada, dando a impressão de que ficara assustadíssimo.
Procurou esclarecer a razão da exaltação. Mas fê-lo de modo pouco hábil.
Explicou que tudo aquilo só lhe causara perturbação por causa de Yvonne se encontrar junto a si no assento traseiro da viatura. Como quem diz “não é por mim”.




GELATINA DE FRANGO

A verdade é que a primeira-dama não deu mostras de grande abalo, ao sentir a sua vida em perigo.
Ela tinha passado pela Fauchon, a prestigiada loja parisiense de produtos alimentares gourmet. Aí adquiriu poulets en gelée, a gelatina de frango que efetivamente veio a servir-lhe de jantar após a emoção do atentado frustrado.
As compras ficaram acondicionadas no porta-bagagens da viatura oficial, que veio a ser interceptada pelos criminosos.
Quando se deu a abordagem terrorista, o coronel Alain de Boissieu, genro do casal presidencial e ajudante-de-campo, disse aos sogros para se baixarem.
Findo o tiroteio, Yvonne e Charles ergueram a cabeça. A primeira-dama demonstrou qual era a sua principal preocupação, dizendo:
- Espero que a gelatina de frango não tenha sido atingida.

terça-feira

RECOMPENSA



Na lei portuguesa, há duas normas importantes sobre objetos perdidos que são achados por terceiros.
O código penal estabelece uma sanção que vai até ao máximo de um ano de prisão para quem ilegitimamente se apropria de algo que encontra. Na prática, a regra é utilizada contra aqueles que se apoderam de quantias que, por engano, são creditadas nas suas contas bancárias. Serve também para viabilizar a condenação de quem revende algo furtado e defende-se dizendo que encontrou o bem abandonado na rua.
Até há cerca de um ano, segundo o código civil, quem restituía uma coisa extraviada ao seu proprietário, tinha direito a um prémio que oscilava entre 2,5% e 10% do respetivo valor. O regime favorecia sobretudo os pescadores que resgatavam bens à deriva no mar. Também poderia beneficiar os que devolviam bichos aos seus donos.
O diploma foi modificado por causa do estatuto jurídico dos animais. Atualmente, quem encontrar algum pertence ou um bicho, apenas é reembolsado das despesas que eventualmente tenha efetuado. A tendência é para considerar que a entrega do animal não deve constituir forma de obter lucros e que o dono não deve ser penalizado com gastos. A mesma disciplina aplica-se aos objetos.



GESTOS

Por duas vezes, eu perdi óculos escuros que nunca reouve.
Mas, de um modo geral, conheço vários casos em que os esforços para reencaminhar algo dévio foram mais significativos do que se poderia esperar.
aqui relatei como, há mais de uma década, uma alma anónima adotou o lindo gesto de não deixar que um postal ficasse abandonado.
contei também como recuperei uma dispendiosa consola de jogos.



CAFÉ

Pois há dias, eu estava às compras no shopping Vasco da Gama, em Lisboa. Na zona da restauração, larguei um saco com 100 cápsulas de café e só dei pela sua falta quando cheguei a casa.
Dois dias passados, telefonou-me uma funcionária da loja Nespresso. Um cliente do centro comercial confiou a embalagem a um vigilante. Este foi depositá-la ao estabelecimento de origem. Como o talão com o meu nome se encontrava junto da mercadoria adquirida, bastou um telefonema para me levar ao conhecimento da existência destes três honestos cidadãos.



MOLESKINE

Uns tempos antes, ali bem pertinho, num posto de abastecimento de combustíveis, eu deixara esquecida a minha carteira. Antes de ter verificado que ela lá ficara, já estavam a entrar em contacto comigo.
Ao descrever estes episódios em família, facilmente concluí que não são casos isolados de seriedade. Seguiram-se narrações análogas.
Com um dos meus sobrinhos, passou-se algo bem interessante.
Em Londres, apartou-se de um bloco de notas Moleskine, igual aos celebrizados por Ernest Hemingway. Continha imensos apontamentos, impossíveis de reconstituir.
Regressado a casa em Portugal, teve uma agradabilíssima surpresa. Um desconhecido gastou o seu tempo e dinheiro. Por via postal, remeteu o caderno ao seu possuidor, cujo endereço ali constava.