domingo

“CONCLUÍ LOGO QUE SE TRATAVA DE UM ANORMAL”

Há tempos, mencionei aqui um curioso episódio envolvendo Zeca Afonso e Vale e Azevedo.

O talentoso músico foi autor da canção “O Coro dos Tribunais”. Aliás, ele nasceu em meio jurídico, pois seu Pai estudara Direito e era juiz.

Num certo momento de sua carreira, o Dr. João Nepomuceno Afonso dos Santos foi colocado em Timor-Leste.

O magistrado tinha três filhos. A mais pequenita seguiu para a ilha do Pacífico, com ele e a esposa. Mas os dois rapazes ficaram em Belmonte, confiados ao tio Filomeno. Situacionista, o homem era tabelião e desempenhava as funções de presidente da Câmara Municipal. Não escondia ser convicto fascista, adepto do ditador Franco e admirador do nazismo.

Já o irmão jurista, de partida para a Oceânia, era uma pessoa completamente diferente.

Nem imaginava como se revelaria tão acertada aquela opção de deixar o João e o Zeca em Portugal.


INVASÃO

Estava-se em 1939 e rapidamente a Segunda Grande Guerra assumiu contornos mundiais.

Os australianos ocuparam Timor em 1941.

A invasão decorreu em moldes altamente rocambolescos. As forças ocupantes dirigiram-se, com a máxima educação, ao palácio do governo português e anunciaram que passariam a comandar os destinos do território.

O pobre governador imaginou a desilusão de Salazar. Pediu que se simulasse uma pequena batalha na praia, por forma a alegar que os soldados portugueses tinham procurado resistir. A conversa decorreu com tamanha cordialidade que os invasores estrangeiros acederam à encenação bufa, com assustador tiroteio noite fora. A saraivada foi bem audível por todos, mas não houve feridos.

A população não desgostava dos novos líderes e agradeceu o desenvolvimento económico, a construção de estradas e os novos hospitais.

 

JAPÕES

O diabo chegou com a invasão nipónica, em 1942.

Os japões, assim denominados em moldes depreciativos, reduziram a presença australiana a uns quantos militares escondidos na montanha.

Criaram campos de concentração para civis, vedados com arame farpado. Passava-se fome, sofriam-se torturas, as pilhagens deixaram a população sem bens, dezenas de pessoas foram cruelmente mortas, muitos pereceram famélicos, outros sucumbiram a doenças e grande parte das raparigas jovens transformaram-se em escravas sexuais, as "mulheres de conforto".

A destruição era impressionante.

Do tribunal nada se salvou, perdendo-se todos os processos e todos os registos, quer do juízo quer do notariado”, confirmava o governador Manuel de Abreu Ferreira de Carvalho, em comunicação oficial.

Alcançada a paz três anos depois, o militar português foi substituído pelo capitão Óscar Ruas.



RELATÓRIO

Regressado a Lisboa, Ferreira de Carvalho foi encarregue de elaborar o “Relatório dos Acontecimentos em Timor”. O objetivo era reescrever a história, culpabilizando os funconários púbicos pelo fracasso militar, absolutamente inevitável perante a desproporção de meios.

William Watt Legatt, numa fase inicial, e depois, os desalmados Sada Shi Chi, Tsuchihashi e Yamada, tinham dominado a ilha durante quase 4 anos.

Simplesmente, o oficial português tinha uma explicação: “salvo raras exceções, eu não podia contar entre o funcionalismo categorizado com colaboradores leais”. Foi este o esclarecimento que ele apresentou quando concluiu aquele relatório, em 1947, dois anos depois de chegar à capital do frágil império.

CAMPO DE CONCENTRAÇÃO

O Pai de Zeca Afonso, juiz em Díli, não escapou à abusiva inclusão no rol dos desleais. Uma série de “categorizados” que não colaboraram lealmente com o governador, deixando-o praticamente isolado perante o inimigo.

Verdade seja dita, o magistrado pouco podia fazer, quando “do tribunal nada se salvou”, segundo as palavras do desinfeliz autor do documento, abandonado pelo “funcionalismo categorizado”.

Mesmo assim, confinado a Liquiçá, sob arame farpado, “para sua própria proteção” no dizer dos japoneses, o Dr. Afonso procurava auxiliar a população, necessitada de comida, agasalhos e medicamentos. Chegou mesmo a participar em trabalhos agrícolas, visando colmatar a fome.

MÁRCIO

Para sustentar a tese de que o juiz de Díli não estivera à altura da situação, o antigo governador socorreu-se do depoimento de outro márcio, José Joaquim da Silva e Costa, que fora enviado pelo governo português a Timor em 1944.

O capitão tinha-se realmente encontrado com o magistrado, mas a reunião não durou mais do que 15 minutos.

Dificilmente, poderia retirar quaisquer ilações.

Por escrito, o militar informou o Conselho Superior Judiciário que não precisara de mais tempo, assim se referindo ao homem de leis: “concluí logo que se tratava de um anormal”.

Um inútil, que “nada faz, nem o tribunal funciona, simplesmente porque ele não quer”. “Apesar de ter sido chamado pelo governador e lhe ter prometido pôr o tribunal de novo a funcionar, tendo sido removidas todas as dificuldades por ele postas, não mais quis saber”. Ou seja: “justiça e tribunal administrativo não funcionam porque o juiz não quer trabalhar”.

E o mandrião ainda teria surgido com uma ideia aviltante que “perante os indígenas devia ter efeitos desastrosos para o nosso prestígio”: cultivar a horta.

Veja-se bem! “Um juiz que na sua profissão não trabalha apesar de instado pelo Sr. Governador, mas que não hesita em cavar a terra. Simplesmente inacreditável”.

Sem tribunal e sem processos, todos sabiam que João Nepomuceno não tinha possibilidades de exercer o seu mister.

Mas, dois anos depois do fim da guerra, quando tudo regressara à normalidade, foi injustamente acusado de ser um dos muitos que não teriam sido fiéis para com o governador português. Serviam de bodes expiatórios para a derrota militar e a impossibilidade de enfrentar as atrocidades nipónicas.

Tudo se encontra bem documentado numa notável obra: “O Último dos Colonos”. Foi escrita pelo irmão de Zeca Afonso, que é um Advogado de reconhecido mérito.

segunda-feira

JOÃO SOARES PRESO EM PARIS

 


Em 1994, um homem foi barbaramente assassinado na sua casa de Fafe. Tinha 44 anos, dois filhos e deixou viúva.

Como sempre sucede em casos de homicídio, a investigação criminal iniciou-se com o inquérito de proximidade.

Nesse domínio, funciona a lei dos grandes números.

Vizinhos, familiares, amigos e colegas são interrogados. Cada um deles pronuncia-se sobre quem será o criminoso.

Quase sempre, o nome mais votado corresponde ao culpado.

Depois, segue-se a recolha de provas. Atualmente, a atividade centra-se em obter junto do Ministério Público autorização para aceder aos dados telefónicos do suspeito. Fica-se a saber onde ele se encontrava no momento do crime e que comunicações foram realizadas antes e depois do acontecimento.

Neste caso de justiça de Fafe, não havia apenas maioria de opiniões.

Existia era unanimidade. Quem mandara matar o homem fora Júlia Cunha, esposa do falecido, segundo todos os que conheciam o casal.

Muitos até tinham um palpite forte: o crime fora cometido quando Hilário se encontrava de férias em Portugal. Tratava-se de um amigo de infância da viúva negra. O emigrante radicara-se em França, mas anualmente visitava a terra de origem. Logo, Júlia tinha-lhe encomendado a morte do marido. Constava que o preço acordado fora de cinco mil contos, cerca de 25 mil euros.


TELEFONEMA

Então, um inspetor dirigiu-se a uma cabine telefónica. Marcou o número da própria Polícia Judiciária.

Sem se identificar, contou tudo, explicando que não fora o velho emigrante a tirar a vida à vítima, mas sim o filho: João Soares, nascido em França e que contava 18 anos à data do homicídio.

No verão seguinte, quando pai e filho regressaram ao norte de Portugal, a polícia já tinha um motivo para interrogá-los. Aquela chamada anónima justificava a diligência.

Só que os arguidos negaram e o processo ficou arrumado nos anais dos casos por resolver, tão congelado como os cold cases dos filmes policiais.



ALEGRIA

Júlia Cunha tinha motivos para desejar a morte do cônjuge e não escondia a alegria por se ter visto livre dele.

Era uma mulher abastada, com vasto património imobiliário, em larga medida oriundo de seu pai, conhecido construtor civil fafense.

Ela casara dez anos antes com “Mandinho”. Mas queixava-se de que o marido bebia muito, tornava-se agressivo, não queria trabalhar e até se metia, por vezes, nas drogas.

Ele aceitava divorciar-se. Mas apenas mediante partilha de bens que lhe fosse favorável.

Todos sabiam o que tinha acontecido, mas não havia provas de nada.





DESAPARECIDO

Dois anos volvidos, a polícia francesa deparou-se com problema idêntico.

Armando Nogueira, português de 29 anos, residente em Paris, tinha desaparecido.

A namorada dele era prima do tal João Soares. Este tinha convidado o namorado da prima para ir com ele a um bosque, propriedade da família, a fim de cortarem lenha. Mas era tudo muito intrigante. Armando mostrara-se nervoso antes do encontro e partira armado com um revólver. Como se a arma fizesse falta para arranjar madeira…

A moça ficara sem noivo, mas não tinha dúvidas: o responsável era o primo.

No entanto, a polícia não encontrava provas.




PARQUE EM AMESTERDÃO

Os dois casos vieram a ser resolvidos pelas autoridades dos Países Baixos.

No dia 16 de abril de 1997, um cadáver foi encontrado em Amesterdão, em pleno Westerpark.

Tratava-se de um jovem, que aparentava 24 anos. Tinha sofrido um ferimento recente na cabeça e fora suturado. A linha utilizada para coser a cicatriz não correspondia a nenhum hospital neerlandês.

Além disso, o homem era portador de um bilhete de comboio de uma viagem entre Paris e a cidade onde fora encontrado morto.

Foi simples descobrir o local onde ele recebera anteriormente assistência médica na capital francesa.

Concluiu-se que a vítima se chamava José Martins Castro. Uma semana antes, fora vítima de agressão em França, país onde residia.

Rapidamente se compreendeu que ele pertencia ao círculo de amizades de Armando, o tal noivo desaparecido.



TRIO FAFENSE

Tudo se esclareceu.

O velho Hilário Soares aceitara realmente encarregar o seu próprio filho do trabalho sujo encomendado por Júlia Cunha, em Fafe.

Aos 18 anos, João Soares obedeceu ao Pai. Arranjou dois comparsas, todos adolescentes.

Os três rapazes encontraram-se com a mulher em Fafe. Ela pagou a quantia acordada e entregou-lhes a chave de casa.

O trio atacou a vítima à facada, assegurando-se que a mandante ficara realmente viúva, como era seu desejo.


ARREPENDIMENTO

Sucede que um dos criminosos era o mencionado José Martins Castro, que se arrependeu genuinamente.

Fez um exame de consciência, queria ser um homem diferente e desabafou com o seu amigo Armando Nogueira.

Este não escondeu a João Soares que sabia de tudo.

Acossado, João montou uma armadilha. Propôs a Armando o tal encontro para corte de madeira. Foi o último dia de vida do lenhador voluntário. Apesar de armado, não escapou à morte por uma traiçoeira flecha disparada sobre as suas costas. O cadáver foi reduzido a cinzas, após ser regado com gasolina.

Mesmo assim, José Martins Castro poderia sempre dar com a língua nos dentes.

Terminou os seus dias assassinado naquele parque dos Países Baixos, dando à polícia local a oportunidade de desvendar dois crimes anteriormente cometidos, um em Portugal e o outro em França.

João cumpriu pena em Fresnes, nos arredores de Paris.

Júlia Cunha acabou por ser presa em Fafe, sua cidade natal.

No domínio nacional, o maior conhecedor da situação é o jornalista António Ferreira Leite, que procedeu a uma aturada cobertura do caso.

quarta-feira

MÉDICOS, PROCURADORES E LOUCOS

 

Há mais de uma década, no jornal Correio da Manhã, uma crónica de minha autoria, intitulada “Médicos, Juízes e Loucos”, despertou interessantes comentários de leitores.

Eu abordava um tema que é sempre controverso. Tratam-se das situações em que um juiz aplica a Lei de Saúde Mental. Decide que uma determinada pessoa deve ser forçada a permanecer no hospital, sujeita a tratamento psiquiátrico, contra o que é a sua própria vontade.

Referi-me ao caso de um setubalense que sofria de delírio de envenenamento. Recusava comer, não confiando sequer nos alimentos que a sua irmã lhe trazia, por recear que alguém os tivesse contaminado.

Mais tarde, inseri esse artigo no meu livro “Se a Justiça Falasse…”.

DOENTES SEM CONSULTA

Muito depois, deparei-me com uma situação complicada, também na cidade sadina.

As consultas psiquiátricas deixaram de ter lugar no edifício do Hospital de São Bernardo. Um dos médicos do departamento recusou prestar serviço no novo local, situado numa quinta fora dos limites da cidade, em plena estrada nacional, já a caminho de Azeitão.

O clínico argumentava que aquele espaço correspondia a uma injustificada estigmatização. Quase parecia um regresso a modelos ultrapassados de segregação: os velhos hospitais psiquiátricos, asilos, hospícios ou manicómios, distintos das restantes unidades hospitalares.

Foi acusado de cometer um crime de abandono de funções, por ter faltado a mais de uma centena de consultas, deixando os pacientes sem assistência.

Tive a honra de ele me escolher como seu Advogado de defesa.

Em julgamento, o psiquiatra acabou absolvido por uma Juíza altamente competente, que fez uma corretíssima aplicação da lei.


PERIGOSOS

Eu gozei do privilégio de privar com Cunha Rodrigues, quando ambos integrávamos o Conselho de Gestão do Centro de Estudos Judiciários.

Nas suas memórias, recentemente saídas do prelo, o magistrado narra um delicioso episódio.

O respetivo título bem poderia ser “Médicos, Procuradores e Loucos”.

Xiao Yang encontrava-se de visita a Portugal. O jurista chinês exercia as funções de Procurador-Geral da Província de Cantão. Posteriormente, viria a ser empossado como ministro da justiça.

Cunha Rodrigues era o líder máximo da Procuradoria-Geral da República, cargo que exerceu durante 16 anos.

Decidiu levar o visitante a conhecer o estabelecimento de Santa Cruz do Bispo, onde ficam internados doentes mentais julgados autores de delitos violentos. São doidos considerados perigosos, mas inimputáveis, para quem uma pena de prisão é inútil. Não sabem distinguir o bem do mal, não conseguem resistir a impulsos ou desvairam-se perante cenários imaginários. Agem violentamente, muitas vezes tornando-se assassinos, matando várias pessoas nalguns casos.

A receção estava bem organizada e contava com uma série de internados a darem as boas-vindas.

Revelavam apresentação cuidada. Compostos, surgiram de fato e gravata.

Um deles proferiu um discurso bem estruturado, com palavras amáveis.

A dada altura da palestra, o intérprete de língua chinesa sugeriu a Cunha Rodrigues que desse a visita por terminada. Xiao Yang tinha manifestado não se sentir seguro.

O Procurador português respondeu, procurando instilar tranquilidade. Tinham-lhe assegurado estarem ali apenas pessoas compensadas, com os fármacos em dia, de tal maneira que até dispunham de autorização para passear na via pública.

O tradutor especificou a causa da preocupação: um homem despenteado, de ar fraldisqueiro.

Com a cabeça, apontou na direção do indivíduo que destoava dos restantes.

Era o médico psiquiatra.

 

OS ANIMAIS E O DIREITO



Impressiona o drama registado no canil de Santo Tirso.
Lavrou um incêndio nas imediações do abrigo. Resgataram-se dezenas de animais. Porém, tal só foi possível após peripécias rocambolescas que levaram a um trágico balanço de aproximadamente 70 cães mortos.
As proprietárias do espaço poderão vir a ser responsabilizadas criminalmente em tribunal.
Os queixosos serão sempre seres humanos, preocupados com o bem-estar dos companheiros de quatro patas.
Um dia talvez os animais possam ser titulares de direitos consagrados legalmente e intervenham como partes de um processo judicial.



JULGAMENTO

Tempos houve em que as bestas eram acusadas de crimes e julgadas enquanto criaturas de Deus, capazes de distinguir o bem do mal.
Tinham direito a Advogado nomeado oficiosamente.
As audiências não eram meros simulacros, mas verdadeiras diligências judiciais, que raramente terminavam com a absolvição. De um modo geral, a sentença determinava a morte do pobre bicho causador dos danos que justificavam o seu julgamento.



CADEIRA ELÉTRICA

Já no dealbar do século XX, nos Estados Unidos, pôs-se termo à vida de uma artista de circo, o elefante fêmea Topsy.
O caso foi apresentado como a execução, por cadeira elétrica, do paquiderme. O animal matara James Fielding Blount, um espetador embriagado que pretendia partilhar a sua garrafa de whisky com a vedeta circense.
Nessa altura, já não havia animais no banco dos réus. Estava-se longe de uma audiência perante a justiça. O triste cerimonial consistiu, acima de tudo, num lamentável golpe mediático em que tudo foi filmado.



PAPAGUEANDO

Recuando no tempo, quando corria o ano de 1794, em França, um papagaio foi efetivamente julgado no tribunal.
O caso é que a ave pertencia ao Marquês de La Viefville.
O nobre permaneceu convicto defensor da monarquia, mesmo após a implantação da República decretada na sequência da Revolução parisiense.
Então, numa atitude de afirmação, decidiu ensinar o seu bicho a repetir: “Viva o Rei! Vivam os padres!”.
Colocou o louro num poleiro em plena rua, para que os transeuntes escutassem aquelas expressões reacionárias.
Alertada a polícia, o papagaio foi detido e conduzido à esquadra para interrogatório. Perante as autoridades, confirmaram-se as loas a figuras do antigo regime. Lavrou-se o auto no dia 16 de abril, que, no novo calendário, significava 27 de germinal do ano II.
Sujeito a prisão preventiva, o arguido arriscava a guilhotina, forma definitiva de silenciar quem se opunha à marcha da revolução. O procurador não hesitou e pediu que fosse aplicada a pena de morte ao papagaio.
O juiz mostrou-se clemente e decidiu-se pela reeducação do Jacó. Confiou-o a pessoa de confiança, de firmes ideais, Marie-Élisabeth Régniez, mulher do deputado Joseph Lebon. A senhora encarregou-se de ensinar novas palavras ao bicho.

domingo

SUICÍDIO NO ALENTEJO



Felizmente, são raros os casos em que os maus-tratos infligidos a uma criança passam mais ou menos despercebidos e acabam com uma morte trágica, como sucedeu no caso da infeliz Valentina.
No passado, provavelmente haveria tantas ou mais situações com semelhante gravidade. Mas talvez não causassem igual impacto mediático.
Se fosse vivo, hoje teria 78 anos um habitante de São Bartolomeu do Outeiro, que teve uma infância profundamente triste.
Em 1953, ele contava 11 anos e frequentava a 3ª classe. Ia reprovando sucessivamente, evoluindo lentamente na aprendizagem. Arrastava-se pelo que hoje é o 1º ciclo do ensino básico, os primeiros quatro anos escolares.


PORTUGUÊS SUAVE

Em matéria de educação, a política do Estado Novo era peculiar e apresentava contradições.
Na década de 1940, celebraram-se dois centenários. Passavam 800 anos sobre a fundação de Portugal. Decorriam 3 séculos desde a restauração da independência, após 60 anos de jugo espanhol.
A grandiosa exposição do Mundo Português assinalou o momento, em Lisboa.
Por todo o país, foram erguidas novas escolas primárias, seguindo um mesmo modelo arquitetónico concebido por Rogério de Azevedo, ao estilo Português Suave.
Desenvolvendo o parque escolar, o plano dos centenários foi executado ao longo de 28 anos.
Nestas construções, estavam presentes arcos, nas paredes caiadas do sul do país. A norte, onde o granito era utilizado, havia alpendres e lareiras.
Somavam-se aos estabelecimentos edificados ainda no século XIX, graças ao benemérito Conde de Ferreira.
Mas enquanto se criavam boas infraestruturas para o ensino gratuito das primeiras letras, com uma rede de ampla cobertura geográfica, a política salazarista impunha redução de despesas a todos os níveis, incluindo o pessoal docente. Apesar de haver professores qualificados, era dada preferência a regentes escolares, pessoas sem as necessárias habilitações, mas que improvisavam o serviço por vencimento mais baixo.
Para os gastos não serem altos, as turmas acumulavam muitos alunos, por vezes mais de 40. Quando possível, separavam-se as meninas dos meninos. Só nos meios mais pequenos, havia classes mistas.
Preferencialmente, os regentes e professores varões ensinavam rapazes. Preveniam-se riscos quanto a avanços sobre as alunas. As senhoras podiam ter a cargo classes femininas ou masculinas.


ABANDONO

Assumia-se uma lógica elitista.
Alguns estudantes abandonariam a escola. Outros aprenderiam a ler e escrever, adquirindo as noções básicas da aritmética e ficando pela 4ª classe. Apenas uma minoria prosseguiria os estudos nos liceus ou nas escolas técnicas.
O resultado era a elevadíssima taxa de analfabetismo e uma população escassamente instruída, o que não colidia com os interesses do regime assente em generalizada falta de cultura.
Como um pouco por todo o mundo, toleravam-se e aceitavam-se até os castigos corporais.
Uns quantos alunos, quase sempre os mesmos, eram exemplarmente espancados perante os colegas. Nas sobrecarregadas salas de aula, não havia agitação. A disciplina mantinha-se graças ao clima de terror. Uma palavra ou um olhar de quem exercia a autoridade impunham a obediência.
A falta de conhecimentos, a indolência, as falhas no cumprimento dos deveres ou os erros puniam-se violentamente. A atenção, o brio, o esforço, a dedicação, o afinco e o esmero nas tarefas académicas incentivavam-se pelo medo.
O tempo perdido com as sovas deixava pouco espaço para a transmissão de conhecimentos.
Constituíam exceção os raros mestres que não batiam.


SADISMO

O que se passou então com aquele moço de 11 anos que frequentava a escola de São Bartolomeu do Outeiro, no concelho de Portel, a uns 40 km de Évora?
Por força dos chumbos, numa terceira classe já repetida, naquele ano de 1953, o desinfeliz menino apanhou com uma regente escolar de 21 anos de idade, sádica como poucas.
As reguadas eram tantas e administradas com tal violência que, certa vez, a mulher fora advertida pela direção-geral do ensino primário, na sequência de queixas apresentadas por pais que não suportavam ver as marcas deixadas nos seus filhos.
O aviso foi inútil. Sobrepôs-se o prazer que ela sentia em infligir dor aos pequenos que dominava. A jovem cruel não moderou as sanções.


GAZETA

O miúdo apanhava diariamente e não aguentava mais. Numa dada manhã, quando ia a caminho da escola, decidiu desviar-se do trajeto. Chegada a noite, dormiu na rua e só no dia seguinte foi localizado pelo pai.
Não podia ser pior o regresso às mãos da “professora”. Como resposta à fuga, ela sujeitou-o a um selvático ensaio de pancada e, já em casa, o pai da criança chegou a ver as suas mãos exibindo hematomas.
Dois dias passados sobre a colossal tareia, de novo na sala de aula, poucos minutos após o seu início, o rapaz sabia que, mais tarde ou mais cedo, haveria um qualquer pretexto para levar, como sempre sucedia. Então, o pobre discípulo encontrou uma forma de isso nunca mais acontecer. Levantou-se e, falando, para a regente, indagou:
- Senhora, dá licença que eu saia para ir atirar-me a um poço?
A inconsciência da mulher era proporcional ao desprezo que ela nutria pelo bem-estar dos alunos. Anuiu irresponsavelmente, convencida de que a intenção anunciada não se concretizaria.
A verdade é que, horas depois, o corpo sem vida do estudante foi resgatado do poço para onde ele se lançara, colocando termo à vida.


SUSPENSÃO

Nos dias de hoje, o desfecho deste drama seria diferente, com certeza.
À época, tal como atualmente, o código penal proibia os maus-tratos e tudo o que favorecesse o suicídio de terceira pessoa.
Mas será que a impediosa mulherzita foi presa? Respondeu em tribunal?
Nada disso.
Foi-lhe aplicada uma sanção disciplinar de seis meses de suspensão das funções, com perda do salário.
O burocrata do Ministério da Educação Nacional, que investigou o caso, considerou que o pobre garoto deveria sofrer de “problemas psicológicos”.

quarta-feira

LE SCANDALE




A primeira mensagem foi enviada pela jovem Advogada estagiária. A resposta vinha do seu Patrono, que a aguardava no restaurante.
Era evidente o jogo de dominação em que os dois alinhavam.




CASA

Tudo se passou em Paris, onde Alex Ursulet instalou o seu escritório, num pequeno rés-do-chão outrora habitado por uma portuguesa, porteira do imóvel. Quando a concierge se aposentou, ela regressou ao nosso país.
Então, os condóminos consideraram preferível contratar uma empregada de limpeza externa. Assim, rentabilizavam a casinha, colocando-a no mercado de arrendamento.
A oportunidade foi aproveitada pelo Advogado que ganhou notoriedade por ter defendido Guy Georges, perigoso assassino em série.
Alto, de cabelo preto encaracolado, grossas sobrancelhas e sempre impecável nos seus fatos de bom corte, o causídico tornou-se inquilino.
Retirou imediatamente os móveis simples e velhos, que recheavam a habitação. Preencheu-a com imponente decoração colonial, pronta a receber os clientes e a permitir-lhe confortavelmente elaborar brilhantes peças processuais com a coadjuvação de tirocinantes, candidatas à advocacia.




ALMOÇO

O tal almoço, mencionado nas comunicações escritas, começou, portanto, com uma ligeira delonga. A jurista de 26 anos compareceu quinze minutos após a hora marcada.
Terminada a refeição, os dois, criminalista e estagiária, caminharam de regresso ao local de trabalho.
Já no escritório, Alex atirou o carregador do seu telemóvel para o tapete de leopardo em que assenta a sua mesa de trabalho.
Disse à colaboradora que apanhasse o objeto caído. Enquanto ela se vergava, o homem levantou-lhe a saia, baixou-lhe as cuecas e penetrou-a com dois dedos.
Os factos foram descritos assim pela queixosa, acrescentando que tudo ocorreu contra a sua vontade.




A PRINCESA

A Ordem dos Advogados expulsou o seu membro, com mais de 30 anos de exercício profissional.
O processo criminal continua em investigação e ele conta com duas defensoras de peso.
Uma é a Advogada que ele escolheu, a sua ex-mulher.
A outra é a sua atual companheira, com quem ele vive em união de facto há 13 anos: Anne de Bourbon, descendente de Louis XIV e prima do Rei de Espanha. Em tempos, a lindíssima princesa representou as casas Versace e Balenciaga. Agora testemunhará a favor do seu amado, dizendo que ele não tem culpa de atrair o sexo feminino e nem sempre corresponder aos sonhos de quem o deseja.
Como por vezes tem sucedido em casos deste tipo, outras mulheres surgiram posteriormente com acusações semelhantes.
Alexandra tinha 29 anos quando foi entrevistada pelo Advogado, esperando ser recrutada. Surpreendeu-se quando ele a convidou para almoçarem juntos. E estranhou muitíssimo os repetidos elogios às suas pernas.
Apesar de convidada para colaborar no gabinete forense, a sua resposta foi negativa. Aliás, aquele mobiliário e a ténue iluminação do espaço faziam-lhe lembrar um autêntico lupanar.

sábado

A SELFIE DE RELVAS



Já aqui contei como foi trágica a vida de Carlos Relvas, filho do político que criou o escudo, a moeda que circulou até chegar a divisa europeia.
O avô deste Carlos Relvas tinha a mesma graça. Carlos Augusto de Mascarenhas Relvas de Campos era o nome completo do ascendente.
Dono de uma imensa fortuna, o velho Carlos Augusto Relvas inaugurou, na Golegã, o melhor estúdio fotográfico português da época, em 1876. Eram os primórdios da arte de fixar para sempre os instantes numa película.
Tal como o neto, também não devia ser homem feliz.
Pior ainda. Arruinava a vida dos outros.
Apoquentou-se com três dos seus filhos: Francisco, José e Clementina.


FOTOGRAFIAS FEMININAS

Francisco até poderia vir a ser como o pai: galifão marialva, admirador da monarquia, toureiro e entusiasta de fotografar nus femininos.
Mas, no Entroncamento, ocorreu um fenómeno. Ele morreu aí, com apenas 18 anos.
Dizia-se que fora um acidente. Provavelmente, tratou-se de assassinato.


QUARTOS SEPARADOS

José era muito inteligente e estudioso. Tinha uma enorme sensibilidade para as artes. Colecionava pintura e escultura.
Mas, para desgosto do pai, aderiu aos ideais republicanos ainda como estudante.
E, como se não bastasse, parecia homossexual. Tal como o seu correlegionário político, Manuel Teixeira Gomes, dois anos mais novo, que chegou a Presidente da República.
Convencido pelo progenitor, José lá casou com Eugénia, oriunda de abastada família viseense. Tiveram três filhos, um deles o tal Carlos, que decidiu morrer aos 35 anos.
Porém, a verdadeira paixão de José Relvas era Francisco Moreira, conservador do Museu Grão Vasco.
Quando encomendou o projeto da sua nova casa, José instruiu o arquiteto no sentido de conceber dois quartos separados, um para ele e outro para a mulher. A explicação era a de que gostava de ler na cama até tarde e não queria incomodar a esposa.
O caminho estava livre para Augusto Lopes Joly, feitor da sua propriedade rural, que se tornou amante de Eugénia. José Relvas, o marido sabedor de tudo, aceitava com naturalidade. O empregado não tinha motivos para sentir problemas de consciência. Era apenas um fiel colaborador que satisfazia ambos os patrões.



MAIORAL

Como se não bastassem estas dores de cabeça, Carlos Augusto Relvas deparou-se com mais uma contrariedade.
Encontrava-se a sua filha Clementina solteira e chegou aos ouvidos paternos que António Nunes da Costa, trabalhador agrícola maioral, rude e grosseiro, se vangloriava, pelas tabernas goleganenses, das intimidades que mantinha com a respeitável menina.
E era mesmo verdade. Clementina amava-o.
Carlos Augusto enfureceu-se com esta conduta da filha.
Ficou tão zangado que decidiu tirar uma fotografia a si próprio com a expressão encolerizada que aquele desgosto lhe colocou na face.
Mostrou o retrato à filha para culpabilizá-la, mas não se deu ao trabalho de tentar persuadi-la a largar o boçal Costa.
A realidade é que o camponês desapareceu e nunca mais ninguém o viu.
Só muitos anos mais tarde se deslindou o mistério. Carlos Relvas mandou matá-lo e o cadáver ficou emparedado na casa do próprio fotógrafo amador.
Quando a grossa parede foi abaixo, o corpo denunciava dois crimes: homicídio e ocultação de cadáver. Mas não revelava roubo. Ainda lá estava o relógio suíço do desinfeliz, o seu anel e as esporas em prata.


PEDINTE

Entretanto, Clementina desesperou com o enigmático sumiço do seu adorado Costa.
Por temor reverencial pela ascendência paterna, a menina aceitou contrair matrimónio com José da Cunha da Eça Azevedo, juiz de profissão. Mas não tardou muito até ser decretada a separação judicial no tribunal. Ela foi viver sozinha para Lisboa, onde pedia esmola aos transeuntes.
O advogado e historiador José Hermano Saraiva nunca mais esqueceu o dia em que se cruzou com a mendiga no Chiado. Deu-lhe uma moeda e não pôde deixar de observar a sua roupa, efetivamente de qualidade, mas já muito coçada.

quinta-feira

ARRANJANDO-SE PÃO, EU TENHO AQUI CHOURIÇO



Era domingo, ao final da tarde. Vindo do Barreiro, eu seguia em direção à Ponte Vasco da Gama, para chegar a Lisboa.
Na autoestrada de acesso àquela travessia, o painel eletrónico anunciava um acidente. Realmente, 3 ou 4 quilómetros depois, o tráfego complicava-se.
Mesmo junto ao posto de abastecimento da Lançada, localidade conhecida pelas famosas enguias fritas, a fila de automóveis era muito compacta. Os veículos estavam quase sempre parados e, ocasionalmente, avançavam a um ritmo lentíssimo.
Acionei o sinal de pisca para a direita e entrei na área de serviço. Não estava com paciência para ficar retido no meio dos carros. Preferia tomar um café, ler o jornal e partir quando o problema se mostrasse resolvido.



ISTO RESOLVIA-SE COMO SE FAZIA EM ÁFRICA

Apenas uma funcionária se encontrava de serviço na cafetaria.
Naquele momento, era o suficiente.
Além de mim, havia somente um outro freguês. Estava sentado numa daquelas cadeiras mais altas, junto a uma mesa redonda, também ela mais elevada, apta a servir quem prefere permanecer de pé, contrabalançando o tempo passado no interior do veículo em que viaja.
Era um homem a aproximar-se dos 70 anos, de óculos com lentes grossas. À sua frente, tinha uma garrafa de cerveja, que ingeria diretamente pelo gargalo.
Após eu escolher o lugar para me sentar, ele mudou de posição para se aproximar de mim. Simpaticamente, lamentou ter-se esgotado o pão naquele estabelecimento. De contrário, ele até disponibilizaria os enchidos armazenados no seu porta-bagagens.
Depois, começou a dissertar sobre o engarrafamento, explicando que já durava há algum tempo:
- Isto é inaceitável. É perfeitamente possível retirar as viaturas acidentadas num instante. Quando eu estava em África, na guerra, vinha um helicóptero que levava as chaimites danificadas. O caminho ficava logo desimpedido.
Decidi não alimentar muito o diálogo e agarrei-me ao jornal.
Com os seus óculos de fundo de garrafa, ele foi repetir a narração dos enchidos junto de um casal que entretanto chegara.
Com doses reforçadas de cerveja, as mesmas abordagens iam-se sucedendo à medida que outras pessoas recorriam aos serviços da cafetaria, dotada de stock já muito reduzido no que respeita a géneros alimentícios. A falta de produtos panificados continuava a ser a justificação para não aparecerem as chouriças.



QUE FAZER?

O tempo ia passando, já escurecera e eu chegara à fase das palavras cruzadas que o periódico me proporcionava.
Até que o homem dos enchidos voltou ao diálogo comigo. De novo, nós os dois éramos os únicos clientes presentes. Explicou-me que o trânsito regressara à fluidez normal. Mostrei-me cético, mas ele insistiu. Espreitei, confirmando que poderia finalmente seguir viagem. Despedi-me brevemente. Mas igual a si próprio, ele não poupou nas palavras:
- Eu também já estou quase de partida. É só terminar aqui esta garrafa. Vou na sexta cerveja. Já estou meio bêbado.
- Nesse caso, não pode conduzir. Tem de arranjar outra maneira de chegar a casa – respondi eu.
- Não há problema. São poucos quilómetros – procurou ele descansar-me.


E O DIA SEGUINTE?

As portas automáticas deslizaram, franqueando-me a saída.
Hesitei.
Ignoraria a questão e esperaria que aquele automobilista chegasse bem a casa?
Ou denunciá-lo-ia, após o próprio ter decidido livremente abordar-me e dar-me a conhecer que estava alcoolizado?
Mesmo alertando as autoridades, será que chegariam a tempo?
Enquanto vacilava, recordei-me de um caso passado há anos. A empregada da estação de serviço de Palmela alertara as autoridades depois de um condutor embriagado ter abastecido a meio da noite. Já na autoestrada, o sujeito foi intercetado e confirmou-se que apresentava uma taxa de alcoolemia altíssima.
Pensando no que fazer, imaginei-me, no dia seguinte, a ler a notícia de um outro sinistro causado pelo homem que ali se pusera a consumir álcool. Não queria sentir-me responsável por nada ter feito.
Afastei uma eventual solidariedade para com quem desejava conversar cordialmente, com uma oferta virtual de salames e teorizações sobre o trânsito. Exclui a hipotética lealdade pela inconfidência relativa à quantidade de álcool.
Eu não iria encobrir aquela situação.
Marquei o número da divisão de trânsito da GNR de Coina e chamei a polícia.